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Planejamento do investimento
social privado
Andrea Goldschmidt*
Quando uma empresa resolve iniciar um programa de investimento social
privado, o planejamento é essencial. Empresas que iniciam o programa
sem ter dedicado um tempo adequado a este planejamento começam
a perceber, no decorrer das ações, que existem problemas
difíceis de ser contornados.
Para evitar estas surpresas, é recomendável que toda empresa
passe por algumas etapas de planejamento antes de iniciar sua atividade
social. São elas:
1. Diagnóstico e identificação de objetivos
Esta é a fase em que observaremos o cenário atual, analisando
o comportamento do mercado como um todo e o que a empresa e seus principais
concorrentes têm feito em termos de ação social até
o momento.
Nesta fase, devem ser levados em consideração os seguintes
itens:
• Qual o ramo de atividades e os principais negócios
da empresa?
• Quais os públicos externos que mais afetam o desempenho
da empresa?
• Quais os interesses da empresa?
• Como o programa social proposto contribui com os negócios
da empresa?
• Qual o prazo previsto para investimento?
• A empresa tem interesse em formar parceiras ou prefere agir
de forma mais autônoma?
• É possível e/ou desejável envolver os
funcionários através da prestação de serviços
voluntários que contribuam para o fortalecimento da ação
social da empresa?
2. Determinação do foco de atuação
Devemos, em primeiro lugar, determinar quais são as motivações
da empresa para investir em ações sociais.
As motivações mais comuns são:
• melhorar a imagem;
• melhorar o relacionamento com fornecedores, clientes ou vizinhos;
• desenvolver ações em benefício de algum
público específico (funcionários, familiares, comunidade
do entorno da fábrica, etc.);
• utilizar incentivos fiscais;
• ou uma combinação de vários destes interesses.
Levando em consideração os interesses da empresa e as necessidades
da sociedade, partimos para a determinação do foco de atuação,
identificando o tipo de investimento (saúde, educação
cultura, meio ambiente, etc) e o público para o qual as ações
serão direcionadas.
Muitas empresas começam a fazer doações para organizações
variadas, conforme demandas externas ou indicações de funcionários,
sem uma reflexão prévia sobre o foco de seus investimentos.
As conseqüências são várias:
a) têm um grande número de parceiros, mas não têm
controle sobre a forma como estes recursos são aplicados;
b) não conseguem avaliar os resultados que o investimento trás
para o seu negócio – o que torna difícil "defender"
a verba no orçamento do ano seguinte;
c) não conseguem avaliar os resultados que o investimento traz
para as organizações apoiadas e para a comunidade –
o que dificulta a determinação da melhor maneira de aplicar
os recursos nos anos seguintes;
d) começam a ter dificuldade em negar solicitações
que aparecem porque não têm bons argumentos para definir
se a doação deve ser feita ou não.
Ter um foco de atuação bem definido, ajuda a garantir que
os interesses da empresa serão satisfeitos, ajuda a evitar problemas
e a direcionar melhor os investimentos efetuados.
3. Determinação do prazo de investimento
O compromisso da empresa com a ação desenvolvida pode ser
de curto, médio ou longo prazo.
Determinar claramente este prazo afetará, por exemplo, o tipo de
doação a ser efetuada - se a verba não puder ser
compromissada por um longo período, talvez seja mais interessante
fazer doações pontuais, ou desenvolver ações
com prazo curto de maturação. Se a empresa puder se comprometer
por um período mais longo, pode pensar em criar ações
com maior envolvimento e maior potencial de impacto social.
4. Identificação da configuração
jurídica mais adequada
Tomadas estas decisões iniciais, é hora de identificar a
configuração jurídica mais adequada à sua
empresa.
É possível pensar em montar um Instituto ou Fundação,
um departamento de Responsabilidade Social ou alocar as ações
em um ou mais departamentos da empresa, distribuindo as atividades entre
os funcionários que acumulam esta função com outras
que já desenvolvem.
Cada uma destas alternativas tem vantagens e desvantagens que precisam
ser levadas em consideração a fim de garantir o sucesso
do programa implantado.
5. Interesse em formar parcerias e capacidade de mobilização
de parceiros
Mesmo que o interesse inicial seja ter um programa social independente,
é importante saber, a priori, se haverá, no futuro, o interesse
em formar parcerias com outras empresas ou associações,
para que sejam tomadas algumas precauções desde o início.
Estas parcerias podem estar relacionadas à execução
das atividades ou ao seu financiamento.
Em geral, é mais fácil mobilizar parceiros depois de algum
tempo de atividade, quando já houver bons resultados para mostrar.
A empresa precisa definir se as parcerias serão firmadas de forma
pontual ou perene. Em algumas áreas de atuação, como
educação, por exemplo, a perenidade da parceria é
muito importante: ações de educação precisam
de investimentos de prazo mais longo, já que seu período
de maturação é demorado. Ações de saúde,
por exemplo, podem ser realizadas de forma mais pontual, envolvendo, por
exemplo, ações de prevenção ou conscientização.
Desde o início dos trabalhos em conjunto, devem estar claras, para
todas as partes envolvidas, quais são as responsabilidades e os
direitos de cada um. É recomendável que exista um acordo
de parceria que regulamente o trabalho conjunto.
6. Interesse em formar utilizar voluntários no programa
Também é interessante avaliar se haverá a possibilidade
(e o interesse) de utilizar voluntários na execução
das atividades propostas.
Funcionários da empresa, seus familiares, fornecedores e outros
parceiros podem interessar-se em contribuir, através da prestação
de serviços para o desenvolvimento das atividades.
Esta é uma forma bastante interessante de aumentar o vínculo
entre a empresa e estas pessoas, além de reduzir sobremaneira o
investimento necessário para a execução das ações
propostas.
7. Criação de um orçamento para o investimento
social
Como em todas as atividades empresariais, um orçamento detalhado
é vital para o bom andamento das atividades. Além de definir
quais os valores a serem doados aos projetos sociais escolhidos, a empresa
precisa calcular as despesas que terá com:
• Gestão dos programas (funcionários, despesas
de escritório, despesas de comunicação, etc)
• Avaliação do programa como um todo
8. Definição dos critérios para avaliação
do investimento social
Todo investimento pressupõe um retorno. Pode ser um retorno para
a empresa (como melhoria do clima, melhoria do relacionamento com um público
específico e até aumento das vendas) ou retornos para a
comunidade (como redução do índice de analfabetismo,
redução de problemas de saúde, aumento da empregabilidade
das participantes, etc.)
Muitas vezes, quando queremos medir o impacto que o projeto teve em uma
determinada comunidade, precisamos fazer uma medida prévia, para
conhecer o problema inicial e poder comparar os resultados obtidos antes
e depois da execução do projeto.
Por isso, os critérios de avaliação e as metas do
programa devem ser estabelecidos antes do início das atividades.
Conclusões
Por mais difícil que seja conter a ansiedade, é importante
pensar e planejar bem as ações de investimento social antes
de começar a atuar nesta área.
As regras e formas de atuação irão depender do plano
inicial e das características de investimento selecionado e, muitas
vezes, quando estas decisões não foram tomadas de maneira
estruturada, surgem problemas difíceis de gerenciar ao longo do
processo.
Um planejamento como este deve levar de dois a três meses para ser
realizado. Este é o tempo necessário para que a empresa
possa maturar seus objetivos, estudar todas as possibilidades e, conseqüentemente,
tomar decisões conscientes sobre a sua atuação social
futura.
Ele também requer a participação de profissionais
de diferentes formações, cada qual contribuindo com sua
expertise com informações relevantes para a tomada de decisões.
* Andrea Goldschmidt é administradora de empresas pela EAESP- FGV.
Trabalha como consultora na APOENA Sustentável Consultoria em Gestão auxiliando
empresas na implantação de programas de responsabilidade
social junto à comunidade.
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