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Diversidade e Inclusão de Deficientes
no varejo
Andrea Goldschmidt*
Desde 1991 existe uma lei no Brasil que obriga as empresas com mais de
100 funcionários a contratarem pessoas portadoras de deficiências.
A lei prevê que uma determinada quantidade de vagas, que varia de
2% a 5% do número total de funcionários, deve ser reservada
para deficientes.
Com toda medida afirmativa, a lei vem causando grande polêmica e
seu cumprimento ainda não é uma realidade para a maior parte
das empresas.
O varejo, que tem como característica a grande necessidade de mão-de-obra,
também vai precisar adaptar-se a esta nova realidade e, por isso,
é conveniente que se esclareçam mitos e verdades sobre diversidade,
lei de cotas e inclusão de deficientes no mercado de trabalho.
Crise ou oportunidade?
Como todo novo desafio que surge, a questão da inclusão
de deficientes no mercado de trabalho pode ser visto pelas empresas como
uma crise ou como uma oportunidade incrível.
Em primeiro lugar, precisamos verificar como a empresa se posiciona sobre
este assunto. Enxerga a inclusão como uma obrigação,
uma ação que deve ser realizada para que se cumpra a lei,
ou como uma ação de cidadania? Considera que a contratação
de pessoas deficientes é um ato de caridade ou uma ação
que demonstra a sua responsabilidade social?
Nosso entendimento é que dar oportunidade de trabalho a pessoas
portadoras de deficiência é, antes de tudo, uma ação
de cidadania. Durante muitos anos estas pessoas foram excluídas
do mercado de trabalho e, conseqüentemente, do mercado consumidor.
Tendo uma oportunidade, irão mostrar que são capazes, que
podem desempenhar determinadas funções com tanta eficiência
quanto quaisquer outros funcionários. Muitas vezes, adaptam-se
tão bem às suas funções que podem tornar-se
até mais produtivas do que outros funcionários.
Há mais de 50 anos, a inclusão de mulheres no mercado de
trabalho era vista com resistência. Hoje, as mulheres ocupam cargos
em todos os tipos de empresas e, muitas delas, preferem contratar mulheres,
sobretudo em funções de atendimento, por serem atenciosas,
dedicadas, delicadas,...
Podemos imaginar que em mais 50 anos, os deficientes ocuparão posições
em todas as empresas e que aí, a lei de cotas não será
mais necessária.
Muitos estudos mostram que promover a diversidade no mercado de trabalho
trás muitos benefícios para as empresas. Pessoas com formação
diferente, com visões diferentes sobre os mesmos problemas, com
origens, idades orientações políticas e religiosas
diferentes, reunidas em um mesmo ambiente proporcionam uma visão
mais holística e promovem a criatividade e a inovação.
Em um grupo heterogêneo, a troca de experiência e opiniões
enriquece todos os indivíduos e, desta forma, quanto maior a diversidade,
mais rica é a comunidade e maior a vitalidade do sistema. Por este
motivo, as empresas devem cultivar a diversidade como uma estratégia
para ampliar a sua visão global e integrada da sociedade em que
atuam.
As barreiras para a inclusão de deficientes talvez estejam mais
em nossas cabeças do que em problemas efetivos. Como durante muito
tempo os deficientes estiveram segregados, a sociedade acabou por reforçar
seus preconceitos e nos acostumamos a mantê-los sempre isolados
e marginalizados.
As estimativas atuais indicam que existam no Brasil cerca de 17 milhões
de pessoas portadoras de deficiências (10% da população).
Como será que conseguimos manter, por tanto tempo, tantas pessoas
à margem da sociedade, sem acesso a educação, a emprego
e ao consumo?
A lei de cotas pretende minimizar este problema e ajudar a dar oportunidade
para que estas pessoas voltem a fazer parte da comunidade e, para isso,
o papel das empresas (como geradoras de empregos) será decisivo.
É claro que a empresa irá precisar fazer algumas adaptações
para receber estas pessoas.
Em geral, são necessárias algumas adaptações
físicas: instalações de rampas, de banheiros adaptados
para cadeiras de rodas, de sinais sonoros e instruções em
Braille para deficientes visuais.
As maiores adaptações, no entanto, estão relacionadas
a questões comportamentais: a verdade é que não sabemos
lidar com as diferenças, não tivemos oportunidades, na infância,
de conviver com pessoas deficientes e, por tudo isso, temos uma enorme
resistência a esta idéia.
Pequenas ações de treinamento e sensibilização,
no entanto, podem resolver este problema.
Benefícios para a empresa
Em geral, os benefícios estão relacionados a:
1. Imagem:
- Na pesquisa Responsabilidade Social das Empresas – Percepção
do Consumidor Brasileiro, realizada pelo Instituto Ethos, Jornal Valor
e Indicator em 2000,46% dos entrevistados declararam que a contratação
de pessoas com deficiência esta em 1º lugar entre as atitudes
que estimulariam a comparar mais produtos de determinada empresa.
- Ser reconhecida como uma empresa que se dá oportunidades a deficientes
agrega um ganho de imagem que tende a fixar-se a longo prazo
2. Ganhos no ambiente de trabalho:
- A empresa inclusiva reforça o espírito de equipe;
- A presença de pessoas com necessidade especiais tende a humanizar
o ambiente de trabalho e melhorar o clima organizacional;
- O ambiente mais humanizado estimula a busca da competência (e
não da competição) profissional.
- O ambiente físico adequado atenua as deficiências e torna-se
mais agradável para todos;
- O desempenho e a produção das pessoas com deficiência,
que muitas vezes supera as expectativas do início do contrato;
3. Os empregados com deficiência ajudam a empresa a ter acesso
a um mercado significativo de consumidores com as mesmas características,
seus familiares e amigos – o que é especialmente importante
para empresas varejistas
Por onde começar
Existem alguns passos que devem ser seguidos para que o programa de inclusão
seja implantado com sucesso:
1. Planejamento
A fase de planejamento é fundamental para estruturar a empresa
para receber estes novos funcionários e garantir o sucesso do programa
de inclusão
a. Montagem do Comitê de Inclusão
O Comitê deve ser formando por funcionários das áreas
de Recursos Humanos (DP, seleção, treinamento), segurança
e medicina do trabalho, jurídico e responsabilidade social.
A principal função do Comitê será coordenar
as atividades nas fases de planejamento e implantação do
programa. Uma vez que o programa esteja implantado, o Comitê poderá
ser dissolvido e as atividades passarão a fazer parte das rotinas
de trabalho dos departamentos envolvidos.
b. Mapeamento das funções
Deve-se verificar através da descrição do cargo,
as habilidades, a mobilidade e os conhecimentos específicos necessários
a funcionários em cada uma das funções existentes
na empresa e avaliar se as limitações impostas pela deficiência
apresentada impedem a realização daquela atividade (o mais
importante neste momento é garantir a segurança do funcionário)
c. Avaliação da estrutura física
Verificar se há necessidade de adaptações físicas
para garantir a segurança e a mobilidade de funcionários
com deficiências. Vale lembrar que, segundo Aranha, 1995, inclusão
é ... “um processo bidirecional, de construção
coletiva, que implica em ajuste mútuo, onde cabe à pessoa
com deficiência a manifestação com relação
às suas necessidades e à sociedade, a implementação
dos ajustes e providências necessárias que a ela possibilitem
esse acesso imediato e definitivo à convivência em espaço
comum não segregado”.
Lojas de varejo devem enxergar estas adaptações não
apenas como um benefício para os funcionários deficientes,
mas também para potenciais clientes que tenham problemas similares.
Adaptar a loja e torná-la mais acessível, pode gerar novos
negócios e facilitar o trânsito de novos consumidores.
d. Definição das estratégias de contratação
treinamento
O processo de recrutamento e seleção de pessoas deficientes
será, provavelmente, um pouco diferente dos processos normais de
contratação, uma vez que ao existem tantos profissionais
disponíveis.
Será preciso partir para um recrutamento mais ativo, deixando clara
a intenção da empresa de oportunidade a estas pessoas.
Contatos com organizações que capacitam deficientes, com
Conselhos Municipais da Pessoa Deficiente e a mídia em geral podem
ajudar a localizar potenciais candidatos.
Também poderá ser necessário pensar em uma política
de treinamentos adaptada que vise dar a estes profissionais as mesmas
instruções e a mesma capacidade de serem bem sucedidos.
2. Implantação
Uma vez terminada a fase de planejamento, a empresa está pronta
para começar a inclusão. Alguns cuidados precisarão
ser tomados:
a. Sensibilização dos gestores
Justamente porque não estamos habituados a lidar com deficientes
e a pensar na inclusão destas pessoas no mercado de trabalho, torna-se
fundamental investir na sensibilização dos gestores.
Eles serão os responsáveis pela abertura de vagas para estas
pessoas e pelo gerenciamento das dificuldades que aparecem no dia-a-dia.
Por isso, eles precisam estar convencidos dos benefícios e importância
deste programa para a empresa.
b. Sensibilização dos funcionários
Pela dificuldade que temos em lidar com o novo, esta etapa de sensibilização
é muito importante. Os funcionários precisam estar preparados
para receber os novos colegas.
Se a empresa tem a intenção de contratar deficientes auditivos,
por exemplo, seria recomendável que os funcionários pudessem
fazer um curso de linguagem brasileira de sinais (libras). Isso facilitará
a comunicação e a integração dos funcionários
e, provavelmente, contribuirá para a melhoria
c. Recrutamento e seleção
Os profissionais que serão responsáveis pelo recrutamento
e seleção de deficientes precisam ter um treinamento especial
para garantir o sucesso do processo.
d. Divulgação interna e externa da política de contratação
de
deficientes
Grande parte do sucesso do programa de inclusão está relacionado
à capacidade da empresa de recrutar bons profissionais. Por este
motivo, a divulgação interna e externa da política
de contratação de deficientes é tão importante.
Funcionários, por exemplo, podem ser boas fontes de indicação
de pessoas capacitadas a ocuparem cargos disponíveis.
3. Avaliação permanente do programa
Do ponto de vista de desempenho profissional, os funcionários
deficientes deverão ser avaliação da mesma maneira
que qualquer outro funcionário, não devendo ser feito nenhum
tipo de discriminação em função da deficiência.
O que será preciso avaliar permanentemente é o programa
de inclusão em si. Devem ser revistas periodicamente as fontes
de recrutamento, os métodos de seleção e treinamento
e as ações de sensibilização e integração,
visando melhorar continuamente o programa.
* Andrea Goldschmidt é administradora de empresas pela EAESP- FGV.
Trabalha como consultora na APOENA Sustentável Consultoria em Gestão auxiliando
empresas na implantação de programas de responsabilidade
social junto à comunidade.
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